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Description
Resumo
São tartarugas até lá embaixo! Cultura, simbolismo e espacialidade na Amazonia pré-colombiana
Nesse artigo discute-se o conceito de cultura arqueológica a partir da perspectiva da antropologia da globalização e se explora, em dois exemplos arqueológicos, a maneira pela qual essa perspectiva nos permite lançar uma nova visão sobre manifestações simbólicas identificadas na ocupação do espaço geográfico na época pré-colonial. É feita uma reflexão sobre a variabilidade cultural que se expressa na produção e uso de artefatos, e a apropriação do espaço físico, incorporando noções de heterogeineidade, conflito e agência no estudo do registro arqueológico.
Resumen
Son tortugas hasta abajo! Cultura, simbolismo y espacialidad en la Amazonia precolombina
En este artículo discutimos el concepto de cultura arqueológica desde una perspectiva de la antropología de la globalización, explorando, en dos ejemplos arqueológicos, el modo por lo cual esta perspectiva nos ayuda a lanzar una nueva luz sobre las manifestaciones simbólicas identificadas en la ocupación del espacio geográfico en la época pre-colonial. Es hecha una reflexión sobre la variabilidad cultural que se expresa en la producción y uso de artefactos, y la apropiación del espacio físico, incorporando nociones de heterogeneidad, conflicto y agencia en el estudio del registro arqueológico.
Abstract
It's turtle all the way down! Culture, symbolism and spatiality in pre-Columbian Amazonia
In this article, the concept of archaeological culture is discussed from the perspective of the anthropology of globalization, exploring, in two archaeological examples, ways by which such a perspective allows us to shed a new light on symbolic representations identified in the occupation of geographic space in pre-Columbian Amazonia. Furthermore, we discuss cultural variability in the production and use of artifacts as well as the appropriation of physical space, incorporating notions of heterogeneity, conflict and agency in the study of the archaeological record.
Résumé
Ce sont des tortues jusqu'à la fin! Culture, symbolisme et espace en Amazonie précolombienne
Dans cet article, on discute le concept de culture archéologique à partir de la perspective de ranthropologie de la globalisation et on explore, avec deux exemples archéologiques, la manière par laquelle cette perspective nous permet de lancer une nouvelle vision sur des manifestations symboliques identifiées dans l'occupation de l'espace géographique à l'époque pré-coloniale. On porte une réflexion sur la variabilité culturelle qui s'exprime dans la production et l'utilisation des objets, et l'appropriation de l'espace physique, en incorporant des notions de hétérogénéité, du conflit et de l'agence dans rétude du registre archéologique.
Introdução
A arqueologia é urna ciência cujo objeto de estudo --o comportamento humano no passado (seja esse passado próximo ou distante)-- não é observável por meios diretos. Portanto, ao valer-se de evidências materiais que são produto de tal comportamento, a arqueologia propõe-se a conhecer um fenômeno não por sua observação direta, mas por suas conseqüências fisicas, como acontece em muitos outros campos de estudo, como a física, a química ou a biologia.
Além disso, a produção do conhecimento sobre o passado está sujeita às subjetividades do pesquisador, personagem situada em outro contexto histórico: o presente. A produção do conhecimento arqueológico depende, portanto, do contexto histórico dentro do qual se insere o pesquisador, e da própria presença do sujeito e sua individualidade. Corno conseqüência, dois sujeitos, ainda que situados em mesmo contexto, sempre produzirão conhecimentos distintos, mesmo que debruçados sobre o mesmo objeto de estudo. Isso não invalida necessariamente a afirmação feita no primeiro parágrafo de que a arqueologia é urna ciência, mas nos alerta para o fato de que todo o nosso discurso sobre o passado informa bem mais sobre nosso presente do que costumamos suspeitar. Moore (1995) alerta para o fato de que as narrativas são bem mais determinadas pelos finais do que por seus começos e que nossas histórias do passado invariavelmente terminam no presente.
A determinação das origens pelos fins necessariamente significa que o passado é construído ou reconstruído em termos do presente. Nossas representações criativas do passado são moldadas não pelo que sabemos ser verdade sobre o passado, mas pelo que acreditamos ser verdade sobre o presente (Moore, 1995:51, ver também Clifford, 1986; Carman, 1995).
Isso posto, é pertinente perguntar em que medida a arqueologia que desenvolvemos na era da informação e dos transportes rápidos, com o encurtamento das distâncias que sempre nos separaram de outros povos e culturas, influi sobre nossa percepção do passado. Se concordarmos sobre o fato de que o presente afeta a maneira pela qual refletimos sobre o passado, como a globalização afeta (ou pode afetar) nossas reconstruções do passado?
Nesse artigo pretendo discutir o conceito de cultura --e especificamente o de cultura arqueológica-- a partir da perspectiva da antropologia da globalização e explorar, em dois exemplos arqueológicos, a maneira pela qual essa perspectiva nos permite lançar uma outra luz sobre manifestações simbólicas identificadas na ocupação do espaço geográfico na época pré colonial. Não me proponho a desvendar significados simbólicos, mas refletir sobre a abordagem da variabilidade cultural que se expressa na produção de artefatos, seu uso e a apropriação do espaço físico, propondo incorporar as noções de heterogeneidade, conflito e agência no estudo do registro arqueológico.
A globalização pode nos ensinar algo sobre a natureza das culturas?
A globalização, corno a entendo aqui, não é uma teoria, mas um fato (lanni 1998). A internet hoje possibilita a troca de informações quase instantânea entre pessoas separadas por dezenas de milhares de quilômetros, em qualquer parte do globo. No ambiente online as distâncias não existem. O transporte aéreo também encurtou distâncias para o fluxo de pessoas e objetos. A transnacionalização da economia possibilitou a produção e circulação transnacional de mercadorias, que carregam significados multiculturais. A tendência homogeneizante da globalização, com a exploração de símbolos antes restritos a determinadas áreas geográficas trouxe o temor da perda das identidades locais. Isso tem ocasionado reações de revitalização e valorização de símbolos regionais tradicionais e sua disponibilidade e valoração no mercado mundial. Dessa maneira, os objetos materiais tradicionais de determinada cultura podem ser transformados em mercadorias e vendidos, sondo finalmente aceitos, absorvidos e integrados por indivíduos com outras tradições e hábitos culturais.
Essa mescla de traços culturais trouxe à discussão a questão da própria natureza das culturas e sua permeabilidade à invasão de culturas estrangeiras. Por exemplo, uma aldeia de indios Karipuna habitando o norte do Amapá, Brasil, possui tecnologia de comunicação por satélite, lanchas movidas a motor de gasolina, ambulância e posto médico. Apesar de ainda caçarem como faziam seus antepassados, comercializam internamente a caça no posto local da Funai (Fundação Nacional do Índio), utilizando a moeda nacional. Um observador externo diria que "perderam sua cultura" ou que agora possuem uma "cultura híbrida". Para dizer que uma cultura é híbrida, é necessário inicialmente sabermos o que constitui um cultura. Será possível a algum grupo social "perder sua cultura"? Ou, perguntando de outro modo, "quanto" de cultura material estrangeira seria suficiente e necessário para que uma cultura tradicional seja chamada de cultura "híbrida"? Afinal, existem culturas híbridas?
A maioria dos estudiosos da antropologia da globalização afirma que não, não existem culturas híbridas (Appadurai, 2004; Hannerz, 1997; Haviland, et ai., 1993). A idéia mesma de cultura híbrida parte de um conceito normativo de cultura, que a entende como um conjunto de práticas, tradições e crenças compartilhados igualmente por um grupo social--um fenômeno homogêneo e com limites definidos. Se tal cultura algum dia existiu, teria deixado de existir a partir do momento em que um grupo de... |

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