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Article Excerpt * RESUMO: Este artigo apresenta uma analise discursiva de uma amostragem de verbetes da primeira edicao e de algumas das reedicoes do Dicionario da lingua portuguesa, de Antonio de Morais Silva (1789, 1813, 1831, 1844, 1858, 1877, 1889). (3) A perspectiva teorica e a da Analise do Discurso de linha francesa, aliada ao campo da Historia das Ideias Linguisticas. O corpus e formado de verbetes dos dominios de nomes de arvores, nomes de animais, nomes de partes do corpo, designacoes sociais, verbos de estado e movimento e verbos de acoes sociais. Mostramos as transformacoes no discurso, as rupturas, os deslocamentos de sentido de uma edicao a outra, explicitando a historicidade das definicoes e a configuracao das formacoes discursivas.
* PALAVRAS-CHAVE: Analise do discurso; dicionario; definicao; lexicografia; lingua portuguesa.
* ABSTRACT: This paper presents a discourse analysis of a sample of en tries from the first edition and some of the reeditions of the Dicionario da lingua portuguesa, by Antonio de Morais Silva (1789, 1813, 1831, 1844, 1858, 1877, 1889). The theoretical approach is based on the French Discourse Analysis and on the History of Linguistic Ideas. The corpus includes entries of names of trees, names of animals, names of parts of the body, verbs of state and movements and verbs of social actions. We show the discourse transformations, the ruptures, the displacements of sens from one edition to another and we explicit the historicity of definitions and the configuration of the discoursive formations.
* KEYWORDS: Discourse analysis; dictionary; definition; lexicography, Portuguese.
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Este artigo aborda o dicionario como um objeto discursivo. (4) O objetivo e analisar a primeira edicao e as reedicoes do Dicionario da lingua portuguesa, de Antonio de Morais Silva. Trata-se do primeiro monolingue do portugues, o mais utilizado durante o seculo XIX, que teve sua 1a edicao em 1789 e contou com oito reedicoes (1813, 1823, 1831, 1844, 1858, 1877, 1889, [19-?]), (5) tendo o autor participado ate a 3a edicao. Na analise, consideraremos tambem a edicao de Silva (1949). O dicionario de Morais propoe realizar, em 1789, uma reducao do dicionario de Bluteau (1712), o que de fato ocorre, quando o autor (SILVA, 1789) reduza dois volumes os oito de Bluteau, permitindo uma circulacao mais ampla, inclusive nas escolas. Esse, como aponta Verdelho (2002), e um dos motivos de seu sucesso editorial. Considerem-se tambem as mudancas na forma da definicao, que deixa de apresentar os comentarios etimologicos e enciclopedicos de Bluteau (1712) e passa a mostrar formulacoes breves, caracteristicas de um dicionario de lingua.
A perspectiva teorica adotada e a da Analise do Discurso, inaugurada na Franca por Pecheux (1990) e tal como trabalhada no Brasil por Orlandi (1999). Dessa perspectiva, procura-se compreender a lingua fazendo sentido, enquanto trabalho simbolico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua historia. A Analise do Discurso concebe a linguagem como mediacao entre o homem e a realidade natural e social, por meio do discurso.
Seguindo alguns trabalhos em Analise do Discurso (COLLINOT; MAZIERE, 1997; DELESSALE; VALENSI, 2002; NUNES, 1996) e em Historia das Ideias Linguisticas (AUROUX, 1992; AUROUX; MAZIERE; ORLANDI, 1998), consideramos o dicionario como um objeto historico e discursivo. Dessa perspectiva, realiza-se uma critica a transparencia das definicoes e ao sentido literal, pois considera-se que os sentidos do dicionario constituem-se historicamente. Tanto as definicoes do dicionario como os sujeitos que as produzem (as posicoes de sujeito dos lexicografos) aparecem em determinados contextos historicos. A analise discursiva visa relacionar a superficie textual do dicionario (as sequencias textuais linguisticamente realizadas) com sua exterioridade, isto e, com suas condicoes de producao, incluindo-se ai o contexto enunciativo e o contexto mais amplo, ou seja, a conjuntura socio-historica de um periodo. Objetiva-se, desse modo, compreender o processo de producao dos sentidos, relaciona-los com a ideologia e mostrar as regularidades do funcionamento do discurso.
As reedicoes do dicionario de Morais (SILVA, 1789) apresentam mudancas significativas, sobretudo em algumas edicoes. Nesses momentos ocorrem transformacoes significativas, as quais estao relacionadas com mudancas historicas que afetam a ordem do discurso. Explicitaremos os deslocamentos discursivos produzidos nessas circunstancias, o aparecimento e as transformacoes de certas formacoes discursivas (religiosa, politica, cientifica, juridica), as mudancas na estrutura dos verbetes e o modo de significacao dos dominios lexicais em questao.
O corpus de base desta pesquisa reuniu 240 verbetes relativos a seis dominios lexicais. Para cada um desses dominios, selecionamos cinco entradas, as quais foram coletadas em rodas as edicoes mencionadas. Os dominios e as entradas sao os seguintes:
Nomes Nomes Nomes de Desig-
de de partes nacoes animais arvores
do sociais corpo Cachorro
Castanheira Perna Habitante Gato Mangueira Orelha
Proletario Tigre Paineira Nariz (i)migrant Urso
Pinheiro Tornozelo Populacao Papagaio Goiabeira Cotovelo Povo Verbos Verbos de de estado/
acoes movi- sociais mento Ser Conquistar Estar
Emprestar Permanecer Doar Andar Reivindica Correr
Protestar Neste artigo, vamos apresentar as analises de seis series de verbetes, cada uma delas correspondente a uma entrada de cada dominio, a saber: castanheiro, urso, tornozelo, povo, ser, doar. Na serie de verbos de estado, incluiremos tambem o verbo permanecer.
Definicao, interdiscurso, formacao discursiva
Para a analise do dicionario como um objeto discursivo, utilizamos os procedimentos metodologicos desenvolvidos por Collinot & Maziere (1997). Estes autores mostram que a heterogeneidade das definicoes faz sentido: as variacoes das formas linguisticas (sintaticas e enunciativas) do enunciado definidor produzem diferentes discursos. O conjunto de verbetes selecionados constitui, assim, uma rede de variacoes formais, a partir de relacoes de substituicao, parafrase, sinonimia. Essa rede e interpretada de acordo com os percursos tematicos adotados na analise.
O conjunto das series de verbetes constitui um corpus historico que nos permite mostrar os deslocamentos da memoria do dizer, ou mais tecnicamente, do interdiscurso. Este e composto pelo complexo das formacoes discursivas presentes em determinadas conjunturas historicas. Chegamos ai no conceito de formacao discursiva. Para a Analise do Discurso, as palavras, as formulacoes, nao tem sentido em si mesmas. Elas ganham sentido no interior das formacoes discursivas as quais se filiam. As formacoes discursivas sao definidas como "o que pode e...
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