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Article Excerpt * RESUMO: Este artigo tem como objetivo geral, a partir da analise de um texto de Gabriela Athias publicado no jornal Folha de S.Paulo, a respeito de uma das tantas denuncias de maus-tratos a menores da Febem, estabelecer um postulado de validade mais geral sobre a forma com que se da o processo de atribuicao de valor as vozes que um articulista traz para o texto. A presente analise pretende observar corno se processa, naquele texto, a delegacao de vozes aos menores, aos promotores e a Febem, tentando produzir um pleito de carater mais geral sobre uma das atividades discursivas levadas a efeito em textos escritos veiculados pela midia.
* PALAVRAS-CHAVE: Discurso; comunidade pressuposicional; citacao de vozes; coercao discursiva; efeito de sentido.
* ABSTRACT: This article has as a basic aim, based on an analysis of a text by Gabriela Athias published by Folha de S.Paulo journal related on one of many denunciations about mistreatments of Febem minors, try to establish a postulate of validad in a general way of the value attribution process is used to the voices that an articulator brings to the text. It will be observed from the analysis about how it is processed, in that text, the delegation of voices to the minors, to the lawyers, and to Febem, and it will be tried to discuss a general principle about one of the discoursives activities gotten by effect on written texts transmitted by media.
* KEYWORDS: Discourse; pressupositional community; citation voices; discoursive coercion; meaning effect.
Introducao
Este artigo se impoe como objetivo central efetuar uma analise possivel do texto FEBEM tinha sala de tortura, diz promotoria, assinado por Gabriela Athias e veiculado pela Folha de S.Paulo, na pagina C3 do caderno Cotidiano, em 30 de abril de 2002. Buscar-se-a verificar que atividade ele realiza sobre as vozes (a citacao do discurso de outrem) que traz para o seu tecido e como acaba, por meio de tal trabalho, denunciando uma representacao social da voz dos promotores encarregados da investigacao, da voz dos menores denunciantes dos maus-tratos sofridos e da unidade denunciada da Febem.
Para efetuar a analise e afirmar um principio de validade mais geral sobre a forma de atuacao da midia no que diz respeito ao problema especifico da delegacao de vozes, lancar-se-a mao de dois topicos teoricos que dao suporte para a discussao a ser realizada e o pleito a ser assumido: a) o conceito de intertextualidade ou processo de citacao do discurso de outrem: uma das formas da heterogeneidade mostrada; e b) a nocao de apoio coral, comunidade filosofante ou horizonte de expectativa: em termos genericos, uma comunidade interpretativa.
Como o objeto tomado para analise e constituido de um texto apenas, e obvio que nao se pretende que o artigo deva ser visto como um trabalho exemplar daquilo que se faz, quando se busca tratar cientificamente um objeto, reduzindo-se ele ao desejo de ser tao-somente um insight que alguem podera julgar pertinente, dando um tratamento mais exaustivo e sistematico ao tema.
Saliente-se, por fim, que se optou por manter os enunciados retirados do texto assim como eles ocorrem no artigo original, sem ajustes e acrescimos, embora possam, as vezes, parecer sentencas interrompidas ou frases inacabadas, para que se pudesse evitar a atitude pouco recomendavel de efetuar algum tipo de manipulacao que force o objeto ase adequar a teoria.
A citacao do discurso de outrem
Se as varias classificacoes para ocorrencias de intertextualidade produzem uma grade analitica heteroclita e multicolorida, tal dubiedade nao e menos forte em relacao ao conceito desse topico teorico: ora ele remete a relacao entre generos e, entao, e chamado de arquitextualidade ou intertextualidade generica; ora a relacao interna de uma obra consigo mesma e, entao, ele e autotextualidade ou mise em abime; ora a relacao de um texto com outro e, entao, tem-se a intertextualidade ou transtextualidade; ora a relacao de uma obra de um autor com outra obra sua e, entao, tem-se a intratextualidade. Encontram-se ainda, nos manuais, os conceitos hipertextualidade e hipotextualidade. E recorrente entre os autores, e isso e elucidativo, que o termo intertextualidade e reservado para os casos em que a materialidade de um texto se preserva naquele que o cita. (2)
Para Genette (1982, p.8), a intertextualidade e definida como "une relation de copresence entre deux ou plusieurs textes, c'est a dire, eidetiquement et le plus souvent, par la presence effective d'un texte dans un autre". (3) Jenny (1979, p.14), por outro lado, propoe-se a "falar de intertextualidade desde que se possam encontrar num texto elementos anteriormente estruturados para alem do lexema, naturalmente, mas seja qual for o seu nivel de estruturacao". Para esses autores, as relacoes intertextuais devem poder ser detectadas como presenca material de um texto efetivo num outro.
Para Jenny (1979, p.14), porem, nao basta que tal acontecimento simplesmente se resuma a uma "unidade textual abstraida do seu contexto e inserida assim mesmo num novo sintagma textual", mas que entre o texto citado e o citante haja uma relacao estruturante, de desvio, negacao ou parafrase: que a cadeia realize um conjunto estruturado de textos postos em relacao. Alem de uma materialidade remanescente, positivamente detectavel, tambem uma relacao dialogante devera ser mantida na polissemia e equivocidade que se abrem, portanto, no enunciado recente.
Poder-se-ia pleitear, portanto, que a intertextualidade em sentido estrito, mais do que a um ponto de contato entre generos ou tematicas, remete ao fato de a materialidade formal de um texto ser reencontrada noutro e ao fato de essa materialidade, por sua vez, remeter ambiguamente a ambos. Os dois textos se sobrepoem, fazendo-se ouvir duas vozes: a que e citada e mantida a distancia, com uma gramatica e uma condicao de producao propria, e a que cita, com a sua sintagmatica, contexto e efeito de sentido. Nesse caso, a leitura demanda que o sentido seja construido nos entremeios de dois textos que dialogam e se condicionam mutuamente.
Jenny (1979, p.20), ao comentar o caso da intertextualidade generica, afirma que, neste caso, "'intertextualidade' seria, alias, pouco adequado, uma vez que a relacao se estabeleceria entre dois sistemas 'abertos' e nao entre dois textos". Por outro lado, Bakhtin (1997, p.145) postula que a diluicao da palavra citada no contexto narrativo nao se efetua, e nao poderia efetuar-se, completamente: nao somente o conteudo semantico, mas tambem a estrutura da enunciacao citada permanecem relativamente estaveis, de tal forma que a substancia do discurso do outro permanece palpavel, como um todo auto-suficiente. A partir desses dois pensadores, poder-se-ia afirmar que, as vezes, faz-se um uso um tanto quanto amplo do conceito (nada impede, porem, que tais sentidos existam e sejam assumidos), preferindo-se, aqui, aplica-lo aos casos em que a materialidade de um texto resta no fio de outro e em que as...
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