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Article Excerpt * RESUMO: A partir da observacao de trechos extraidos de obras literarias brasileiras e de suas traducdes publicadas, este trabalho, fundamentado na Teoria das Operacoes Enunciativas de Antolhe Culioli (2000) e nos procedimentos tradutologicos de Aubert (1998), sugere ampliar a discussao sobre a arte de traduzir pela observacao da traducao da arte, propondo um calculo metalinguistico da atividade de linguagem apreendida na pratica da diferenca linguistica por diferentesestrategias de traducao (emprestimo, decalque, explicitacao e adaptacao).
* PALAVRAS-CHAVE: Enunciacao; traducao; literatura brasileira.
* ABSTRACT: This paper broadens the discussion on the art of translation by observing the translation of art, i.e., the French translation of some Brazilian literature excerpts, based on Antoine Culioli's (2000) Theory of Enunciative Operation and on Aubert's (1998) translation procedures. In this context, this paper proposes a metalinguistic calculus for the language activity that is grasped from the translation practice of handling linguistic divergences through different translation strategies.
* KEYWORDS: Utterance act, translation, Brazilian literature
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Traducao, linguagem e linguas
A traducao, resultado do anseio do homem de dominar ou conhecer o seu semelhante pela religiao, pela guerra, pela politica, pela ciencia, pela arre ou pela cultura, seja por ambicao ou por admiracao, e uma das manifestacoes do contato entre pelo menos duas linguas. Os problemas ou beneficios desse contato quase sempre sao discutidos a partir da diferenca superficial entre as linguas, seja ela sintatica, lexical, semantica, cultural ou pragmatica.
Por intermedio dos conceitos e metodos linguisticos aplicaveis a todos os niveis de analise das linguas e da linguagem, e possivel observar e discutir o fenomeno da traducao de varias maneiras, focalizando a diferenca textual superficial ou a atividade de linguagem apreendida na diversidade textual superficial. O primeiro enfoque culminara num contraste entre textos ou linguas a partir do qual a diferenca sera evidenciada; o segundo partira do contraste e da consequente diferenca superficial para levantar, dai, aspectos regulares e generalizaveis relacionados a linguagem.
E bem verdade que a traducao e o complemento do original na logica da diferenca linguistico-cultural. Porem, antes de ser uma manifestacao do contato entre linguas, ela e, na qualidade de texto, uma manifestacao da atividade cognitiva humana de linguagem. Na qualidade de rastro dessa atividade, inata na especia humana, como seria possivel discutirmos a traducao restringindonos ao campo superficial da diferenca intransponivel e irredutivel que existe, de fato, entre as linguas e culturas ou entre um original e uma traducao, sem levar em conta a natureza dessa diferenca, que e inerente a atividade de linguagem em qualquer uma de suas manifestacoes? Tal confusao esta bem delineada no simbolismo cheio de armadilhas ilusorias da torre de Babel, cuja imagem alegorica da origem da diferenca entre as linguas parece ser, ironicamente, um bom argumento para resolver o equivoco dessa restricao ou, pelo menos, para ampliar a discussao.
Com o intuito de introduzirmo-nos nesse debate para, em seguida, trabalhar pela linguistica enunciativa com exemplos extraidos de traducoes de textos literarios, faremos a seguir um passeio interpretativo por dois capitulos biblicos que falam de Babel e de Pentecostes, com o auxilio de dois textos ja classicos sobre a traducao, um de Walter Benjamin (1971) e outro de Jacques Derrida (1985). As duas historietas biblicas, que serao relembradas adiante, remetem alegoricamente aos dois pontos de vista analiticos linguisticos sobre a traducao acima aventados. Pelo vies babelico, evidencia-se a problematica da diferenca superficial e da perda de unicidade e, consequentemente, estuda-se a traducao a maneira estruturalista: comparam-se estruturas (lexicais, sintaticas, semanticas) ou valores historicamente convencionados, contrastam-se organizacoes textuais, recepcoes, efeitos, entre outros, o que evidencia um olhar linguistico estritamente comparativo, contrastivo ou distribucional. Pela postura pentecostiana, ponto de vista por nos adotado, salienta se a questao da regulacao pela alteridade, o que nos da uma observacao linguistica da traducao que parte da diferenca (de uma analise previa contrastiva, comparativa ou distribucional, que nos da os rastros da linguagem nas linguas ou nos textos) em direcao as regularidades (funcionamentos regulares da atividade de linguagem que se manifestam diferentemente nas linguas).
Babel e a pluralidade linguistica
Para iniciarmos o nosso itinerario, falemos, resumidamente, de Babel. No Genesis (BIBLIA, A.T., 1990), narra-se a historia da construcao de uma cidade e de sua pretensa torre. Esse trecho biblico conta que um povo, descendente de Noe, e portanto unico sobre a Terra, apos o grande diluvio, e falante de uma unica lingua, quis construir uma cidade e, nessa cidade, uma torre que tocasse os ceus. Tal feito tornaria esse povo glorioso e lhe permitiria a sua continuidade sem dispersao, o seu imperialismo, a sua dominacao, o seu poder. Mas como Deus nao estava contente com esse proposito, de uma mesma linguagem confundiu os homens e criou-lhes varias linguas, para que nao pudessem se entender uns aos outros. Por esse motivo, a torre nao pode ser terminada e tal cidade recebeu o nome de Babel. Dessa forma, Deus faz valer suas vontades e transforma o destino desses homens, que vao se dispersar na Terra, se multiplicar e dar origem a novos povos. Babel e, pois, a grande metafora da origem das diferentes linguas e, consequentemente, das diferentes culturas, uma vez que falar uma lingua diferente implica compartilhar de uma cultura tambem diferente daquela a qual pertence o outro. Desse modo, a traducao associa-se a ideia de Babel pelo fato de nascer, obrigatoriamente, no mesmo instante em que surge a pluralidade linguistica superficial.
Para Derrida (1985), que propoe uma reflexao acerca da traducao, a partir de um exame filosofico do nome Babel e de todo o universo metaforico que dele provem, Deus, movido pela inveja, desconstroi o nome proprio que queriam edificar os construtores e habitantes daquela cidade, nao permite que eles se agrupem em torno de uma so lingua e lhes impoe o seu proprio nome, uma vez que, segundo Voltaire (apud DERRIDA, 1985, p.210), Ba quer dizer pai e Bel quer dizer Deus. Babel seria, dessa forma, sinonimo de cidade santa ou de cidade de Deus.
Entretanto, o nome Babel e entendido comumente como confusao. Pelo fato de a Biblia ter sido lida quase sempre a partir de traducoes ao longo dos seculos, o nome Babel acabou perdendo sua multiplicidade, sua ambivalencia, sua polissemia. Alem disso, ele e ao mesmo tempo nome proprio e nome comum. Segundo Derrida (1985), esse nome proprio e sempre intraduzivel como tal e nao pertence, de forma rigorosa, como as outras palavras, a uma lingua em particular e, ao mesmo tempo, pertence a cada uma das linguas na qualidade de nome comum. Assim, Deus "impoe e proibe ao mesmo tempo a traducao"; alem disso, se mais de uma lingua pode estar implicada num texto, "como traduzir um texto escrito em varias linguas ao mesmo tempo? Como restituir o efeito de pluralidade? E se traduzimos atraves de varias linguas ao mesmo tempo, chamaremos isso de traduzir?" (DERRIDA, 1985, p.214-215, grifo do autor, traducao nossa)
Para a palavra pierre, por exemplo, que pertence a lingua francesa e e um nome comum, teriamos em portugues sua traducao pedra (2), que, segundo Derrida, transportaria (3) o sentido de pierre. Ja Pierre, nome proprio que nao se pode assegurar ter sua origem na lingua francesa, nao encontra traducao adequada em portugues, Pedro. Do mesmo modo, afirma entao Derrida (1985), Babel escapa a classificacao de Jakobson (1971) para os tipos de traducao (intralingual, intersemiotica e traducao propriamente dita), pois nao se sabe se o nome Babel pertence somente a uma determinada lingua. A sua traducao proibe a transparencia e impossibilita a univocidade.
A alegoria babelica, para Derrida (1985), simboliza ao mesmo tempo a diferenta pela divida, pelo preenchimento do espaco que falta para completar a torre, uma vez que a construcao nao pode ser terminada porque seus construtores, a partir de entao falantes de linguas diversas, nao se compreendiam mais, nao podiam mais levar a cabo o projeto de construcao inicial. Nesse momento, cada lingua passa a ser aquilo que falta as outras linguas, e cada traducao passa a ser aquilo que falta ao original. Tanto as linguas entre si quanto o original frente a traducao estao endividados. Ai, inscreve-se tambem outro paralelismo entre duas relacoes: Deus e o homem, este feito a imagem e semelhanca daquele, e o original e a traducao, esta derivada daquele. Tal como o homem que, ao finalizar a construcao da torre, igualar-se-ia a Deus, o tradutor, ao finalizar uma traducao,...
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