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...construcoes linguisticas evocam imagens mentais como falantes traduzem a construcao de tais imagens em escolhas lexicais. Na construcao do texto descritivo, a escolha lexical constitui um aspecto basilar na construcao de imagens. Constatou-se que as construcoes linguisticas repercutem as estruturas conceptuais que sao ativadas concomitantemente em dimensoes variadas, pois o conhecimento linguistico, nos niveis gramatical, lexical e fonologico, deixa transparecer as influencias culturais e expressa a visao de mundo do usuario.
* PALAVRAS-CHAVE: Oralidade; imagens; descricao.
* ABSTRACT: This paper analyzes the construction of images in descriptive sequences produced by illiterate speakers in spontaneous face to face interactions. Based on Palmer's (1996) conception of image and Adam's (1993) conception of descriptive sequences, it investigates how linguistic constructions evoke mental images and how speakers translate these images through their lexical choices. In descriptive texts, lexical choice is a basic aspect of image building. The analysis shows that the linguistic constructions reflect the conceptual structures that are activated concomitantly in various dimensions; linguistic knowledge at the grammatical, lexical and phonological levels reveal the cultural influences and expresses the users' world views.
* KEYWORDS: Orality; images; description.
Introducao
Ao falarmos, nao nos utilizamos apenas de uma diversidade de linguagens, mas colocamos em conexao individuos, linguagens, cultura e sociedade. A cultura, a historia pessoal do individuo e a sociedade na qual esta inserido estruturam as imagens produzidas pelos interlocutores. Pensar como as imagens regem as construcoes gramaticais, como as palavras evocam imagens mentais, como os olhos da nossa mente concebem as imagens captadas pela audicao, como traduzimos mentalmente as imagens percebidas pelos nossos olhos ou ainda como as emocoes geram imagens no processo de interacao face a face, parece ser do interesse do linguista que deseja estudar os enunciados linguisticos em relacao as suas condicoes de producao. As construcoes linguisticas, portanto, evocam imagens e provocam a construcao de novas imagens no processamento do discurso oral. Afirmar que a descricao cria uma imagem do ser descrito seria constatar o obvio, no entanto dedicarei este trabalho ao processamento das imagens nas acoes descritivas, procurando destacar como a sequencia descritiva favorece a elaboracao de imagens em interacoes face a face. As imagens sao definidas, neste trabalho, como "representacoes mentais que comecam como analogos conceptuais da experiencia perceptual imediata oriunda dos orgaos sensoriais perifericos. Como as imagens sao analogos da experiencia periferica, elas tambem sao, portanto, analogos conceituais indiretos do ambiente, amplamente construido para incluir sociedade, fenomenos naturais, nossos proprios corpos e seus processos organicos (e mentais), e todo o resto do que e frequentemente chamado de realidade ou o mundo la fora" (PALMER, 1996, p.47).
Neste trabalho, sao investigadas as imagens da terra e das moradias, dos moradores e dos visitantes e as da cultura material, tomando como referencias teoricas Palmer (1996) e Adam (1993). Procurei, a partir da sequencia prototipica da descricao apresentada por Adam, observar as relacoes entre o uso e a compreensao dos recursos linguisticos e nao linguisticos e o conhecimento enciclopedico dos interlocutores na significacao das imagens e, consequentemente, no entendimento da interacao. O corpus analisado se compoe de conversas informais e entrevistas (3) realizadas com os moradores (adultos e idosos) da comunidade semi-isolada, negra e analfabeta, de Pedra d'Agua, que se situa na regiao do Piemonte da Borborema, zona do Agreste paraibano, a cerca de 35 km de Campina Grande. Os dados foram coletados entre abril de 1989 e julho de 1991, numa perspectiva etnografica. Foram realizadas sete visitas a comunidade com a variacao de permanencia de um a cinco dias consecutivos. Os informantes selecionados para este trabalho estao na faixa etaria entre 35 e 97 anos. Todos sao analfabetos, exceto M02 que pode ser classificada como uma leitora funcional, na terminologia de Perini (1991, p.79).
Consideracoes acerca do texto descritivo
Dentro da tipologia textual tradicional, a descricao sempre esteve atrelada a narrativa, numa posicao de "escrava sempre necessaria, mas sempre submissa, jamais emancipada", como definiu Genette (1996 apud MARQUESI, 1996, p.45). Com o desenvolvimento dos estudos sobre a narrativa, alguns pesquisadores comecaram a perceber e a investigar particularidades no processo de construcao e de compreensao das descricoes (HAMON, 1981; ADAM; PETITJEAN, 1982a, 1982b). Somando-se a estes estudos, os adventos da Linguistica Textual, encontram-se no ambito nacional os trabalhos de Neis (1986), Koch e Favero (1987) e Marquesi (1996), assegurando a descricao o status de texto. Todos esses estudos tiveram como foco de analise o texto escrito. Para Hamon (1981, p.40),
um sistema descritivo e um jogo de equivalencia hierarquizada: equivalencia entre uma denominacao (ums palavra) e uma expansao (um conjunto de palavras justapostas em lista, ou coordenadas e subordinadas em um texto) ...
Dessa forma, a existencia do sistema descritivo, segundo Hamon (1981, apud MARQUESI, 1996, p.53), caracteriza-se como "um processo de por em equivalencia uma denominacao com uma expansao, apelando ao leitor para uma competencia de saber". Essa competencia de saber abrange as competencias lexical, enciclopedica e taxionomica dos interlocutores. Adam e Petitjean (1982a apud MARQUESI, 1996, p.94) avancam na definicao de competencia textual descritiva, conceituando-a como "um saber-fazer-textual-comunicativo do homem". Ha uma competicao de competencias na construcao da descricao, pois a area circunscrita de uma descricao, que depende do acervo lexical do autor/falante, compete com a do leitor/ouvinte e nao essencialmente com a natureza do objeto descrito. A construcao de imagens se da mediante essa competicao de competencias, visto que os envolvidos na interacao irao formulando e reformulando as imagens em processamento, a partir das sugestoes dadas pelo descritor, do surgimento de novos detalhes, do conhecimento previo de cada interlocutor, entre outros fatores.
Em "Contribuicao a uma tipologia textual", Koch e Favero (1987, p.5-6), com base em esquemas conceituais-cognitivos, estabelecem tres dimensoes interdependentes como basicas a comparacao/diferenciacao de textos. De acordo com essas dimensoes, as autoras caracterizam o texto descritivo:
a) dimensao pragmatica:
i) macroato: assercao de enunciados de estado/situacao;
ii) atitude comunicativa: mundo narrado ou mundo comentado;
iii) atualizacoes em situacoes comunicativas: caracterizacao de personagens (fisica e/ou psicologica) e do espaco (paisagens e ambientes) em narrativas; guias turisticos, verbetes de enciclopedias, resenhas de jogos, relatos de experiencias ou pesquisas, reportagens etc.
b) dimensao esquematica global:
i) superestrutra descritiva: ordenacao espacio-temporal (tabularidade predominante) e apresentacao das qualidades e elementos componentes do ser dascrito;
ii) categorias: palavra de entrada (tema-titulo): denominacao, definicao, expansao e/ou divisao.
c) dimensao linguistica de superficie:
i) marcas: verbos predominantemente de estado, situacao ou indicadores de propriedades, atitudes, qualidades; unidade do estoque lexical assegurada pelo tema-titulo; relacoes de inclusao (hiperonimia-hiponimia); nexos ou articuladores relacionados a situacao do objeto-tema e de suas partes no espaco; adjetivacao abundante; parataxe; tempos verbais (presente no comentario, imperfeito no relato); emprego de figuras (metaforas, metonimias, comparacoes, sinestesias etc.).
Recorre-se, neste trabalho, a aspectos astruturais e formais do texto descritivo com a finalidade maior de investigar as microestruturas empregadas pelos falantes, quando da construcao do sentido, especificamente atraves do uso de imagens. Por isso, faz-se necessario investigar as atividades de negociacao e de conducao da interacao, pois como salienta Marcuschi (1997, p,26) "o texto enquanto um fenomeno empirico global ... e um fato social consolidado nas praticas diarias".
A seqiencia descritiva prototipica e suas macrooperacoes
A sequencia prototipica da descricao proposta por Adam (1993) compreende um tema-titulo (theme-titre) e quatro macrooperacoes, que sao: (a) procedimento de ancoragem (procedure d'ancrage), b) procedimento de aspectualizacao (procedure d'aspectualisation), (c) procedimento do estabelecimento das relacoes (procedure de mise en relation) e (d) procedimento de encadeamento pela subtematizacao (procedure d'enchassement par sous-thematisation). Sao operacoes de base tanto de producao quanto de compreensao do processo descritivo.
a. Procedimento de ancoragem: ancoragem (ancrage), afetacao (affectation) e reformulacao (reformulation)
Pela operacao de ancoragem--apoio referencial--a sequencia descritiva assinala um tema-titulo, quer desde o inicio, quem/o que vai ser a questao (o apoio proptiamente dito), quer no final da sequencia, quem/o que acaba de ser a questao (afetacao), ou ainda, combinando essas duas maneiras, retoma modificando o "tema-titulo" inicial (reformulacao). A operacao de ancoragem e responsavel pela evidencia de um todo do tema-titulo.
O termo tema-titulo equivale, na literatura pesquisada, aos termos denominacao (HAMON, 1981), palavra de entrada (KOCH; FAVERO, 1987) e dasignacao (MARQUESI, 1996). O tema-titulo e um fator de coesao semantica referencial, isto e, recai sobre ele a focalizacao do sistema descritivo. Adam (1993, p.89, grifo nosso) destaca que:
e provavelmente a existencia desta operacao geral de ancoragem que leva M. Riffaterre a dizer, em relacao ao sistema descritivo, que ele parece com uma definicao de dicionario e o considera como "um canal verbal fixado que se organiza em torno de uma palavra central".
b. Procedimento de aspectualizacao
A operacao de aspectualizacao e responsavel pela fragmentacao em partes do tema-titulo, considerando as qualidades ou propriedadas do todo (cor, dimensao/tamanho, forma, numero etc.), as propriedades das partes focalizadas. E, portanto, a operacao mais comumente admitida como base da descricao. Adam (1993, p.89) lembra que a descricao e...
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