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Dialogo e dialogismo no processo da aquisicao da linguagem.

Publication: Alfa: Revista de Linguistica
Publication Date: 01-JAN-02
Format: Online - approximately 7870 words
Delivery: Immediate Online Access
Full Article Title: Dialogo e dialogismo no processo da aquisicao da linguagem.(Tema central: linguagem na interacao social)

Article Excerpt
* RESUMO: O objetivo deste trabalho e a reflexao a respeito da questao do dialogo e do dialogismo no processo da chamada aquisicao da linguagem. A partir da observacao de um episodio ocorrido entre mae e filha, em contexto familiar, procuro realizar alguns apontamentos acerca da consideracao do dialogo como unidade de analise nos estudos em aquisicao. Busco retomar a relevancia de sua emergencia nos estudas da area, para, enfim, problematizar a questao no ambito de uma nocao dialogica constitutiva da linguagem humana, a proposito dos estudos desenvolvidos por Bakhtin.

* PALAVRAS-CHAVE: Aquisicao da linguagem; fala da crianca; interacionismo; dialogo; dialogismo; Bakhtin.

* ABSTRACT: The purpose of this paper is to invemigate dialogue end dialogisrn in language acquisition. By observing a mother and daughter episode, in an everyday scene, it considers the dialogue as unit of analysis in conformity with language acquisition research field. Accordingly, this paper focuses on theoretical issues concerning the notion of dialogism as a constitutive aspect of human language after Bakhtin.

* KEYWORDS: Language acquisition; child speech; interacionism; dialogue; dialogism; Bakhtin.

Um primeiro olhar: a bicicleta feia de Anamaria

Em se tratando de uma investigacao na area da aquisicao da linguagem, nao poderia escapar a observacao de, pelo menos, um dado, como ponto de partida para os apontamentos a que me propus. O dialogo que se segue foi recolhido por uma pesquisadora (linguista) brasileira, cujo trabalho resultou no levantamento dos corpora longitudinais de duas criancas tambem brasileiras, Anamaria e Juliana. No episodio relatado, Anamaria (A) encontra-se na varanda da casa, com sua mae (M), brincando com uma bicicleta. A transcricao do episodio revela o fato de que a lataria de uma das rodas estava amassada. A mae pergunta a menina:

M. Ce gosta do Danilo? A. Danilo muito bonzinho. Deu uma bicicleta pra mim ... Aquela! Mas o meu pai nao e bonzinho, quero que / meu pai comprou essa daqui nao, porque essa daqui e feia, ne? Vai sobrar pra Juliana agora ... M. Vai o que? A. Vai sobra pra Juliana! M. Essa aqui? A. Banquinho dela! Pode ligar radio! M. Esse banquinho, pra por radio por cima, ne? A. E. Ela pode ligar / ela pode mexer aqui, mas sem / sem 'sagar. M. Hum-hum. Sem estragar. A. Mas quando ela ficar grande, ne? Ficar nenezinha assim ... M. Maiorzinha ... (Serie Anamaria, 3;9.20. Arquivo Cedae/ Unicamp) (2)

A menina expressa a mae os sentimentos por Danilo, a pessoa que lhe deu uma bicicleta, supostamente melhor do que aquela com a qual estava brincando na varanda de sua casa. Poder-se-ia dizer, na observacao desse episodio, que Anamaria atribui ao pai o fato (depreciativo do ponto de vista dessa crianca) de ter de brincar com uma bicicleta "feia", cuja lataria da roda esteva amassada. A menina parece encontrar como solucao para seu estado de animo a doacao dessa bicicleta feia para a irma mais nova, Juliana ("Vai sobrar pra Juliana agora ..."). A continuidade tematica do dialogo entre mae e filha e, aparentemente, interrompida pela sequencia em que Anamaria diz "Banquinho dela! Pode ligar radio!". A mae, entretanto, nao se deixa abalar pela suposta ruptura do tema da conversa. Do ponto de vista da interpretacao do interlocutor adulto, poder-se-ia supor que Anamaria fazia referencia ao banco ("banquinho") da bicicleta como lugar indicado para a colocacao de um aparelho de som, o radio, ainda que tal objeto nao tivesse sido apontado na fala da crianca ou na do adulto ate aquele momento. Anamaria adverte a mae de que a irma pode ligar e mexer no aparelho, desde que nao o estrague.

A advertencia formulada pela menina fez-me pensar se o aviso se dirigia, de fato, a mae ou, mais diretamente, a imagem da irma mais nova. Com efeito, uma projecao da imagem de Juliana por Anamaria parece refletir muito do que se compartilha socialmente a respeito do imaginario sobre pessoas mais novas que o proprio enunciador. Anamaria encontrava-se, aparentemente, preocupada com o fato de que a irma pudesse estragar o aparelho de som. Sua fala "Mas quando ela ficar grande, ne? Ficar nenezinha assim ..." exprime os cuidados e advertencias, insistentemente repetidos pelos adultos, que devem ser tomados para que uma crianca nao se machuque com (e nao danifique os) aparelhos eletrodomesticos. O emprego da conjuncao adversativa "mas" e um indicio desse momento de transicao que deve ser observado (e que nao escapa a Anamaria), a proposito de um desenvolvimente fisico, e tambem intelectual (a responsabilidade com o manuseio de objetos, por exemplo), por parte de uma crianca.

Em relacao a continuidade desse mesmo enunciado de Anamaria, e de meu interesse destacar o emprego divergente de "nenezinha" no lugar de "maiorzinha", corrigido, na sequencia, pela mae. Ha de se pensar, novamente, como o fragmento apontado traz muito do que uma crianca ouve em sua interacao com adultos falantes. Por Anamaria ser mais velha que Juliana, e bastante provavel que tenha sido exposta ao emprego constante de "nenezinha", em contraposicao a sua propria condicao de filha mais velha. Ou, ainda, pode-se imaginar que o emprego de "nenezinha" seja parte da memoria discursiva de uma crianca que, aos 3;9 anos de idade, ainda e chamada por hipocoristicos como "nenezinha" (da mamae, do papai). O deslocamento do emprego correto de "maiorzinha" por "nenezinha" e assunto que sera retomado adiante.

Esse episodio ocorrido entre Anamaria e sua mae aconteceu no dia 13 de setembro de 1977. Poder-se-ia atribui-lo a qualquer contexto familiar ainda mais recente, cuja rotina envolvesse a convivencia entre pais e filhos; o momento ludico, com a manipulacao de brinquedos (a exemplo da bicicleta e do aparelho de som), e a exposicao de sentimentos humanos na relacao de uma crianca com um amigo (Anamaria e Danilo), com o pai (Anamaria e seu pai), com a irma mais nova (Anamaria e Juliana). Todavia, de um ponto de vista dos estudos em aquisicao da linguagem--mais especificamente, do (socio)interacionismo, como ver-se-a a seguir--deve-se colocar em evidencia o que nao esta explicito no relato dessa cena cotidiana: a importancia da interacao entre a crianca e o adulto falante para a materialidade da fala no evento dialogico.

O dialogo como unidade de analise

A questao fundamental para a area da aquisicao da linguagem e a investigacao de como a crianca aprende a falar, em termos de mudancas qualitativas. Nao por acaso as interrogacoes mais frequentes sao direcionadas para a identificacao de supostos estagios e fases no que se considera uma aprendizagem. Questiona-se se esses estagias e fases seriam os meamos para todas as criancas, independentemente de sua ascendencia genealogica, de sua origem geografica, de sua condicao socioeconomica e cultural. Pergunta-se se existem aspectos da lingua que sao particularmente mais dificeis de serem apreendidos e se a velocidade no aprendizado faz diferenca na formacao da crianca. Pode-se, mesmo, interrogar a exclusividade da fala como atributo humano, uma vez que pesquisadores afirmam que animais, como os primatas, podem aprender uma "lingua"--ainda que essa definicao de lingua nao seja identificada com a humana, e que esteja mais proxima da comunicacao entre...

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