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Revista Alfa: um texto da cultura linguistica brasileira.

Publication: Alfa: Revista de Linguistica
Publication Date: 01-JAN-02
Format: Online - approximately 3845 words
Delivery: Immediate Online Access

Article Excerpt
Voce olha para as coisas que existem e pergunta: "Por que?" Eu sonho com as que nunca existiram e pergunto: "Por que nao?"

Bernard Shaw

Em 2002, a Alfa, revista de Linguistica editada pela UNESP, completa quarenta anos. Esse lato e impressionante, quando se sabe que o primeiro curso...

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...de Letras do Brasil foi criado em 1934; que as dificuldades para viabilizar uma publicacao academica sao imensas; que, em virtude da descontinuidade dos financiamentos, os periodicos academicos e culturais costumam ter vida bastante efemera. A Alfa e uma das tres revistas da area de Letras, de publicacao corrente, mais antigas do Brasil. Mais velhas que ela somente dois periodicos, coincidentemente denominados Revista de Letras: o mais antigo e editado pela Universidade Federal do Parana e o outro e a revista da UNESP consagrada aos estudos literarios.

Vieira, no Sermao de Santo Antonio, pregado em Sao Luis do Maranhao, em 1654, diz que "nas festas dos santos e melhor pregar com eles do que pregar deles". Por isso, gostaria de fazer uma analise, ainda que preliminar e superficial, da Alfa. Um trabalho definitivo devera ser feito por um dos muitos estudiosos de Historia das Ciencias da Linguagem. Para meu exame, vou tomar o periodico como um texto.

O texto e um objeto linguistico e um objeto historico. Pode-se privilegiar na teoria ou na analise um ou outro desses aspectos. Dar enfase ao aspecto linguistico implica considera-lo um todo de sentido, dotado de uma organizacao especifica, diferente da frase. Isso significa, portanto, dar relevo especial ao exame dos procedimentos e mecanismos que o estruturam, que o tecem como uma totalidade de sentido. Cabe lembrar que a palavra texto provem do supino do verbo latino texo, is, texui, textum, texere, que quer dizer tecer. Da mesma forma que um tecido nao e um amontoado desorganizado de fios, o texto nao e um amontoado de frases, nem uma grande frase. Tem ele uma estrutura, que garante que o sentido seja apreendido em sua globalidade, que o significado de cada uma de suas partes dependa do todo.

Dar destaque ao aspecto historico leva a preocupar-se primordialmente com a formacao ideologica de que ele e expressao, com as relacoes polemicas que, numa sociedade dividida em classes, subclasses, grupos identitarios, estao na base da constituicao das diferentes formacoes discursivas.

Antigamente, dizia-se que as teorias que trabalhavam com o primeiro aspecto faziam uma analise interna do texto, as que operavam com o segundo faziam uma analise externa. Essa terminologia e ruim, porque deixa entrever que aquelas so se ocupam do aspecto linguistico, enquanto estas so tem olhos para o extralinguistico. Na verdade, cada uma ressalta um aspecto da constituicao do sentido e, portanto, sao ambas teorias linguisticas. As primeiras acentuam os mecanismos intradiscursivos, e as segundas, os interdiscursivos. Vale ressakar que estamos falando em predominancia de interesse por um dado aspecto e nao em exclusividade.

Durante muito tempo, partidarios de uma ou de outra teoria trocaram uma serie de "acusacoes". Os que se ocupavam preponderantemente dos aspectos intradiscursivos foram tachados de reducionistas, dizia-se que eles ignoravam a Historia, que tinham uma visao empobrecedora do texto. Por outro lado, afirmava-se que os que trabalhavam predominantemente com as relacoes interdiscursivas eram cegos para os mecanismos de estruturacao do texto, nao reconheciam sua especificidade linguistica. Na verdade, as desconfiancas mutuas nao precisariam existir, ja que, de um lado, nao se pode exigir que uma teoria estude fatos que estao fora de seu escopo explicativo, e, de...

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