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Generos primarios e generos secundarios no circulo de Bakhtin: implicacoes para a divulgacao cientifica.

Publication: Alfa: Revista de Lingüística
Publication Date: 01-JAN-08
Format: Online
Delivery: Immediate Online Access
Full Article Title: Generos primarios e generos secundarios no circulo de Bakhtin: implicacoes para a divulgacao cientifica.(Texto en Portuguese)

Article Excerpt
Introdução

O texto "Os gêneros do discurso" (1952-1953) sintetiza noções desenvolvidas desde os anos 20 por Bakhtin e seu círculo e lança fundamentos metodológicos para uma abordagem dialógica da linguagem. Embora formulada em uma época na qual apenas Bakhtin ainda vivesse e considerando a diversidade de autores de obras muitas vezes atribuídas a Bakhtin, assume-se aqui que a teoria dos gêneros do discurso e a conseqüente distinção entre gêneros primários e secundários origina-se de trabalhos de pesquisa em grupo iniciados nos anos 20, dos quais participam, entre outros, Medvedev e Volochinov. É nessa perspectiva que será investigada a proposição de Bakhtin de que a distinção entre gêneros primários e secundários é de "grande importância". Para tanto, propomos considerar quatro dimensões da distinção entre gêneros primários e secundários: as alternativas metodológicas do círculo à abordagem dos formalistas, o enriquecimento que a análise integrada das esferas ideológicas e cotidianas pode trazer para a teoria dos gêneros, a ampliação dos resultados das pesquisas de Bakhtin sobre o romance e, por fim, a natureza dialógica de todos os gêneros. As duas primeiras dimensões decorrem do diálogo do círculo de Bakhtin com correntes de pensamento importantes na Rússia da época: o formalismo, o marxismo e a filosofia da vida. As duas últimas são engendradas pelo desenvolvimento da teoria dialógica do círculo. As conclusões desses quatro temas, orientadores das primeiras seções deste artigo, iluminam a subseqüente abordagem dialógica do estatuto da divulgação científica no Brasil.

A oposição aos formalistas

O primeiro sentido da importância atribuída à abordagem integrada entre gêneros primários e secundários deriva da posição do círculo em relação ao formalismo russo. O projeto dos formalistas era "criar uma ciência literária autônoma a partir das qualidades intrínsecas do material literário" (EICHENBAUM, 2001[1965], p.31) (2) e, para atingi-lo, propunham a libertação da poética em relação a preocupações estéticas "o positivismo científico que caracteriza os formalistas: uma recusa de premissas filosóficas, de interpretações psicológicas e estéticas etc. O estado mesmo das coisas demandava que nos separássemos da estética filosófica e das teorias ideológicas da arte" (EICHENBAUM, 2001[1965], p.35) (3). Para atingir tal fim, tematizavam a oposição entre uma linguagem (4) poética e uma linguagem cotidiana ou prática:

A idéia da economia de forças como lei e finalidade da criação é talvez verdadeira em um caso particular da linguagem, isto é, na linguagem cotidiana; essas mesmas idéias foram estendidas à linguagem poética, devido ao desconhecimento da diferença que opõe as leis da linguagem cotidiana àquelas da linguagem poética. (CHKLOVSKI, 2001, p.80) (5)

Para os formalistas, a "linguagem poética" é regida por princípios próprios, entre os quais se destacam:

1) A precedência da forma sobre o conteúdo;

2) A emancipação da palavra das suas aplicações e usos cotidianos ou práticos, com vistas a eliminar os automatismos decorrentes desses usos.

Contrariamente a esses pressupostos, o círculo rejeitava dois isolamentos que a abordagem formalista provocava na poética: a sua separação de questionamentos estéticos sobre o sentido geral da arte e o seu distanciamento do conjunto das produções culturais. Bakhtin (1993[1924]), p.15) afirma que é impossível compreender a singularidade da literatura "sem uma concepção sistemática do campo estético, tanto no que o diferencia do campo do cognoscível e do ético, como no que o liga a eles na unidade da cultura". Segundo Bakhtin, a estética geral é necessária para evitar uma abordagem simplificada e superficial da arte literária e a redução das considerações estéticas à abordagem exclusivamente lingüística. Essa perspectiva leva à consideração da primazia do material sobre os outros elementos artísticos e à proposição de uma estética material, liberta da orientação da literatura para o mundo. Uma das conseqüências dessa orientação é a indistinção entre a forma arquitetônica e a forma composicional da obra de arte. Enquanto a primeira compreende o projeto artístico do autor-criador, permeado por valores cognitivos e éticos, a segunda abarca a organização do material lingüístico.

Bakhtin (6) defende que a obra de arte só podia ser comparada com outros produtos da criação ideológica (ciência, ética etc.) e que a literatura se encontrava em interação ativa com outras esferas ideológicas, não havendo justificativa para a sua comparação exclusiva com a linguagem prática. A opção teóricometodológica do círculo tende na direção do quadro conceitual do que Rastier (2001) chama uma poética generalizada, ao adotar um ponto de vista unificado sobre os gêneros literários e não-literários para descrever "a diversidade dos discursos (literário, jurídico, religioso, científico etc.) e sua articulação com os gêneros". Portanto, Bakhtin propõe, por um lado, a consideração dos diversos domínios artísticos (literatura, música, artes plásticas etc.) no âmbito de uma estética geral e, por outro, a comparação da arte com as demais esferas da cultura, como meio de encontrar seus traços característicos.

Em relação à conhecida oposição entre linguagem prática e linguagem poética, Bakhtin/Medvedev propõe, primeiramente, que não se pode falar de uma linguagem poética, mas somente de funções poéticas da linguagem em obras poéticas. Em seguida, ataca o caráter arbitrário de eleição da linguagem prática ou cotidiana como procedimento metodológico para determinar as especificidades da linguagem poética. Essa perspectiva levou a uma definição negativa desta última, no sentido de que seus princípios fundamentais derivam do que ela não é (desautomatização, deformação, forma obstacularizada etc.) e a conseqüente ausência de uma caracterização positiva. Em terceiro lugar, aponta-se a falta de uma análise minuciosa e consistente das diferentes esferas da comunicação cotidiana, aí incluindo o horizonte ideológico (conceitos, crenças, costumes etc.) nos quais se constroem os enunciados, para se chegar a seus traços característicos. A lingüística, que fornece boa parte da fundamentação dos formalistas, construiu seu objeto de estudo -a língua-, por meio da abstração das formas do enunciado tanto cotidiano quanto literário, não possuindo, portanto, resultados confiáveis para fundamentar o método formal. Por fim, para Bakhtin/Medvedev, a língua prática dos formalistas--caracterizada pela automatização dos recursos discursivos, economia, desatenção em relação ao som etc.--é uma construção arbitrária, que a priva de todo seu potencial criativo.

Contrariamente à caracterização dos formalistas, Bakhtin/Medvedev concebe a linguagem prática e cotidiana como um processo de geração do acontecimento. Nela, o tato discursivo, entendido como os procedimentos de polidez ou de discortesia, tem uma grande importância na formação dos enunciados. Em certas condições, o tato favorece o aparecimento de características que os formalistas atribuem à linguagem poética: rupturas, evasões, ambigüidades, rodeios no discurso. Quando esses traços penetram na literatura, a estrutura da obra se dialogiza, adotando a forma de um diálogo implícito ou manifesto com o leitor. Este posicionamento teórico-metodológico de desconstruir a oposição dos formalistas explica, em parte, a proposição de Bakhtin nos anos 50 de estudar os gêneros primários, pertencentes ao domínio do que os formalistas chamam de línguagem prática, na sua relação com os gêneros secundários, entre os quais os literários ocupam um papel de destaque nas formulações de Medvedev, Volochinov e Bakhtin.

Vejamos, a seguir, como o tema da relação entre gêneros primários e secundários ganha importância no diálogo do círculo com o marxismo e a filosofia da vida.

Esferas ideológicas e ideologia do cotidiano: o diálogo com o marxismo e a filosofia da vida

A importância concedida à distinção entre gêneros primários e secundários pode ser explicada ainda pelo diálogo com o marxismo da época. Este se refletiu na teorização, presente em Marxismo e filosofia da linguagem, sobre a relação entre a ideologia do cotidiano ou psicologia social e os sistemas ideológicos. Na referida obra, Bakhtin/Volochinov cita a teoria de Plekhânov sobre a psicologia do corpo social enquanto elo intermediário entre a infra-estrutura e a superestrutura. Segundo Tihanov (2005), a idéias de Plekhânov tornam-se clássicas na Rússia dos anos 20, época da produção da obra de Bakhtin/Volochinov.

Plekhânov (1978[1908]), ao criticar a leitura "unilateral" da ação histórica da economia, argumenta que "numa sociedade primitiva a atividade produtiva exerce uma ação direta sobre a concepção do mundo e sobre o gosto estético", porém "numa sociedade dividida em classes a influência direta da atividade produtiva sobre a ideologia se torna bem menos aparente. Neste caso, o fator econômico cede lugar ao fator psicológico" (p.53). O teórico marxista compreende a psicologia social enquanto a visão ou concepção de mundo dos diferentes grupos sociais em luta. Ela está localizada logo acima do regime sociopolítico, o qual, por sua vez, está edificado sobre uma "base" econômica dada. Essa proximidade é responsável pela suscetibilidade da concepção de mundo dos diferentes grupos sociais à...

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